domingo, 14 de outubro de 2007




Gatinho de Cheshire”, começou, bem timidamente, pois não tinha certeza se ele gostaria de ser chamado assim: entretando ele apenas sorriu um pouco mais. “Acho que ele gostou”, pensou Alice, e continuou. “O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, respondeu o Gato.
“Não me importo muito para onde…”, retrucou Alice.
“Então não importa o caminho que você escolha”, disse o Gato.



Lewis Carroll em Alice no País das Maravilhas

meios amores

Aquela velha mania de fazer pela metade e cobrar por inteiro.
Então foi que mais uma vez, e vocês vejam que antes de saber o que, já sabemos que não foi a primeira vez. Então, mais uma vez, ele foi lá, e ofereceu a ela o seu meio amor.
Ao lado do casal, caminhou por um longo período a certeza que o meio amor dele não era qualquer meio amor, e mesmo ao meio valia muito mais do que a maioria dos amores inteiros que a gente encontra na praça.

Era o que eles achavam, aliás, era o que ele tinha como certeza e ela como destino e feliz que estavam foram se conformando e vivendo esse meio amor.

Pois bem, no pacote vinham também meio quereres, meias declarações, meio interesses e um tiquinho de meias verdades. Se o sexo não fosse por inteiro, se a vontade e os desejos não valessem por mais do que os dois, a realidade do saldo negativo, há algum tempo, tinha os alertados.


Mas a vida corrige alguns rumos e cobra algumas diferenças, não tem jeito. E assim foi que num belo dia a fatura foi lançada e o caixa fechou em vermelho.

Nesse dia a moça percebeu que se dava por inteiro e recebia pela metade. E nesse dia ela também resolveu que iria correr atrás do prejuízo. Não correu, achou que reclamar a sua parte seria o suficiente.

Foi, cobrou e chorou! A parte que lhe faltava não estava guardada, não estava escondida e não lhe pertencia como era de se esperar. Suas meias partes roubadas, por longos 3 anos fizeram crescer e florir um grande amor por inteiro, amor que não era dela.

Mas não pense que a história faz do moço um vilão, pois essa sorte teria lhe poupado o sofrimento de olhar para si e se ver no meio de mais um caminho, mais um caminho que não levou a lugar nenhum. Mais um caminho ao meio. Uma jornada que não se acaba. Nunca é inteira.

A moça chorando, guardou pra si seu amor em pedaços e antes que o vento lhe assoprasse as partes quebradas do coração, bateu-lhe a porta um alguém que se ofereceu a junta-las e faze-las inteira de novo.

O moço, hoje cobra por inteiro o que sempre deu pela metade e sonha com o dia em que deixará de receber ao meio, o que pretende dar pelo dobro.

E a vida, em cálculos às mãos, pela fortuna de alguns e a miséria de outros vai fechando seu saldo e sorrindo aos amores que se completam.

E assim a conta nunca zera.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sobre estratégia, erro e troca.






Nunca tive muita paciência para jogos de estratégia. Acho que até seria um bom estrategista se tivesse jogado mais cartas, batalha naval, war e banco imobiliário quando ainda estava na escola. Aliás, só não escreverei tudo o que eu deveria ter feito nos tempos de colégio além de estudar ou no lugar de estudar, pois o texto seria uma ode ao “vagabundismo” e isso passa longe das minhas intenções.
Mas é pura verdade e você vai concordar bem comigo. Algumas boas coisas pra vida nós aprendemos no ambiente escolar e não necessariamente sentados em frente ao quadro negro (verde ou branco). E uma delas deveria ser o pôquer, ou o truco, o vinte e um, o buraco , a cacheta, etc. Mas não foram e no final das contas hoje não sei usar o hífen e nem resolver uma equação de segundo grau, além , obviamente de ter esquecido como se jogam as cartas.

Posso até glorificar-me um pouco por estar perdendo só de 4x3 no meu mini-campeonato familiar de xadrez , contra um dos mais temerosos jogadores que conheço. Mas ele só tem onze anos , então acredito que o meu orgulho é relativo.

Bem, vimos que de estratégia sou bem fraco, mas tenho alguns bons conceitos guardados. O suficiente pra dizer que estou nesse momento, num dos mais delicados em que um jogador pode se encontrar.

Acabo de perder uma mão valiosíssima em troca de outra que me cantaram como um blefe, mas estou apostando todas as minhas fichas.
Tudo se encaminha para a hora em que as cartas deverão ser abertas e digo-lhes, que de rabo de olho, o que vejo é muito favorável, nunca foi tão favorável. Ou nem tanto assim, ou nem um pouco assim pra ser sincero.

Talvez eu devesse ter esperado antes de descartar a mão boa, e nesse momento ela se foi, não tem volta. Deixou-me em troca de quem fizesse uma aposta à sua altura. Se essa aposta é um blefe, não sei, esse é um jogo que já não é mais o meu.

Mas sobre a troca temos a conversar. Reluto ainda em achar que não foi feita uma troca. Não uma troca comum, o assim pelo assado, considerando se apenas o estado e a funcionalidade do “objeto”. Mas sim uma troca de valores agregados. Eu explico.

Cada um possui em si todas as condições para oferecer plenamente o que o oposto deseja amorosamente, claro, estou partindo de um estágio onde as necessidades básicas de aproximação, conquista e convívio já foram cumpridas. O que me parece, baseado no raciocino acima, é que o amor de cada pessoa vive um ciclo próprio podendo ou não permanecer por muito tempo na mesma fase e ritmo do ciclo da pessoa amada.

Acho e isso não passa de “achismo” de quem está a procura de boas explicações para as coisas que não possuem ou não precisam ser explicadas, que se por um lado essa teoria de inseto tonto pode dizer bastante sobre os desencontros da vida amorosa. Por outro também explica a estratégia e o jogo que cada um põe a mesa pra negociar o seu amor, dando valores e agregando qualidades, supondo que a pessoa amada encaixe-se em seu planejamento e o oponente possa menos.


E é isso, dessa forma que me encontro. Sem cartas nas mangas, com os bolsos vazios e uma carta apenas nas mãos.
Não vou lhes dizer sobre o que vejo no semblante dos demais jogadores, pois teria que revelar a minha esfinge de medo, nem vale também descrever as cartas abertas à mesa. O momento é de concentração, esperança e vontade que, diga-se de passagem, são péssimos elementos pra creditar à sorte no jogo que não seja de azar e sim de estratégia.

Mas assumo, ando sendo um péssimo estrategista , embora não perca a sorte como jogador, todavia, nunca existiu carta melhor em minhas mãos, juro!

Amém

O amor que nunca fica


......
O menino ama , ama com todas as palavras.
Ama o amor profundo e puro.
Ama tanto que vive o dia com um só pensamento.
Ama e olha para a tela e lamenta.
Ama e olha para casa vazia,

........................para a cama arrumada,
........................para o luar,
........................para o espelho,

........................para as próprias mãos,
........................para os pincéis limpos,
.......................................e soluça, e chora.


Ama tanto que vence o medo, sem medo.

Ama tanto que sorri, que vive.
Ama tanto que tudo guarda
....................Guarda até a própria felicidade.
....................Coleciona vidrinhos, vidrinhos de felicidade e diz que vai derreter e fazer um vitral com eles.


O menino é amigo da palavra.
O menino só sabe amar com as palavras.

O menino sempre, sempre se declara.
E talvez por isso ele vá embora antes de escutar o silêncio, que sempre fica.