Me levo a pensar sobre as barreiras que erguemos perante as pessoas que acreditamos amar tanto, outrora incondicionalmente. Dizem que o tratamento nos casos mais graves, inclui não só o viciado , mas aqueles que o amam e que diretamente lutam ou lutaram pela sua recuperação tão desejada e que acabam por sobrevivência, construindo paredes contra os seus mais puros sentimentos.
Os transtornos causados pelo vício age em vários níveis e potencialmente são capazes de deteriorar relações sérias de afetividade e confiança. A dependência corrói a moral, o respeito , a dignidade e os esforços de todos e muito antes de conseguir reagir, amantes e amados caem.
Mas existe uma guerra que pode ser vencida, mesmo contra essas piores condições.
Esse momento de resgate é ainda possível quando em vista de tudo que se perdeu e a incapacidade de conseguir gerir suas necessidades, o seu equilíbrio e auto-controle . O viciado num raro momento de sanidade enxerga a si . E diante da destruição daquele que o vê no espelho percebe que está doente.
Esse seria o momento zero, o momento mais sensível em que é mais necessário o apoio e a crença daqueles que o tem como amado. Só que nessa hora, poucos sobram.E neste caso, aquela última que dizia lhe amar tanto, definitivamente cansou.
Seu desgaste foi por tanto tempo e de forma tão intensa que ela preferiu curar se longe dele. Fechou as portas e correu o mais distante possível para respirar um ar puro. Um ar de compensações longe do seu próprio sofrimento .E infelizmente longe também da chance de curar aquele seu doente querido.
Para ela, a palavra da especialista que lhe é amada, bastava. “ Fique longe dele”. E essa era a melhor e a mais fácil forma de poder curar se daquele mal. Talvez isso parecesse a ele como uma punição. Uma vingança por ter estragado o futuro que ela tanto sonhara mesmo que isso também lhe roubasse vida. Abandoná-lo na hora em que ele mais precisava não era algo horrível, afinal ela sempre esteve junto dele. Ela foi a única que permaneceu quando todos partiram. Ela se machucou porque já tinha acreditado antes . Então ela podia, ela é a única que podia sem culpa e com raiva negar lhe o abraço acolhedor . O seu amor incondicional já não era o bastante e possuía sim condições suficientes para não acreditar que ele poderia conseguir .
E assim ela fez.
E assim, no único momento em que ele, o viciado, pôde de fato realizar algo de concreto por sua recuperação. Todas as portas estavam fechadas, todo o amor partido e toda a esperança perdida.
Hoje é mais um dia em que ele cai. Desta vez sozinho e sem chance de perdão. Sem caminho a seguir. Sem luz para mirar. E pela mais cruel ironia, aquela que lhe nega a cura, é a mesma que lhe trouxe o vicio.
E a sua doença , sem controle, sem tamanho, sem noção, sem cuidado, de todas as formas e com todas as erradas formas...
Tem um nome, esse nome é “amor”.
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